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quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Com salário parcelado, bombeiros chegam a nadar na lama em MG

Foto:Pedro Ladeira/Folhapress
Com lama até o pescoço, os bombeiros militares que atuam no resgate de vítimas do rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho (MG), são protagonistas de um resgate sob condições extremas.
Em cinco dias, a equipe encontrou 84 corpos e localizou 192 pessoas com vida. Há ainda 276 estão desaparecidas, algumas das quais jamais serão encontradas, segundo afirmou o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni.

Para que esse número seja o menor possível, os bombeiros chegam a ficar até dez horas seguidas na chamada "área quente", onde se concentram os mortos e os destroços da tragédia. O período de descanso entre uma missão e outra é de seis horas.

São, ao todo, 436 militares que dormem em acampamentos, pousadas e escolas: 220 mineiros, 136 israelenses e 80 de outros estados.

"A lama é um dos materiais mais difíceis do mundo em se fazer resgate", explica o tenente Pedro Aihara, porta-voz do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais.

Por ser líquida, ela preenche todos os lugares, acabando com a possibilidade de bolsões de ar, que podem ocorrer em casos de desmoronamentos. E é pior do que água, por ser mais densa. O impacto ao atingir as pessoas causa lesões severas —por isso os bombeiros às vezes recolhem apenas parte de corpos.

A convivência diária com a tragédia pode abalar o emocional dos militares. Em Brumadinho, há psicólogos para acompanhá-lo. Até agora, não precisaram de atendimento diferenciado. "Se qualquer um detecta que o companheiro está apresentando sintoma de estresse pós-traumático ou burn out, que geralmente são as doenças mentais que mais acometem os bombeiros, ele já pode solicitar acompanhamento específico."
Foto: Washington Alves/Reuters

Aihara informou também que todos os bombeiros em Brumadinho estão catalogados para que, ao retornarem, passem por entrevistas para avaliação de como reagiram.

A situação dos profissionais em Minas tem ainda um agravante. Desde 2016, o estado decretou calamidade financeira e vem parcelando o salário do funcionalismo público. Os militares atuando em Brumadinho também não receberam o 13º, que será pago em 11 parcelas ao longo do ano.

Além da grave crise fiscal, o estado possui outra especificidade. Segundo Aihara, a tradição da mineração fez com que os bombeiros se especializassem em situações como essa vivida em Brumadinho.

"A realidade de Minas em relação à barragem e à exploração de minério, nesta intensidade, só existe aqui. O número de barragens aqui é enorme", diz Aihara. "Pela própria experiência e por esse tipo de acidente já ter acontecido várias vezes, em escalas menores, já é um tipo de ocorrência que estamos acostumados. A gente desenvolveu um curso específico dentro dos Bombeiros para isso", completa.

Na tragédia de Mariana (MG), de 2015, os bombeiros conseguiram resgatar mais de 70% dos corpos, o que é considerado bom pelo padrão internacional. "Se a gente atingir um índice parecido aqui já vai ser um trabalho de grande sucesso", afirmou.

O trabalho com rejeito de minério é peculiar. Além do curso de salvamento em soterramentos, enchentes e inundações, feito para atuação nesse tipo de cenário, os bombeiros utilizam técnicas de busca e resgate em estrutura colapsada e cães farejadores.

"O cão é treinado num conceito de binômio, sempre o militar e o cão. Esse binômio é sempre fixo, porque é um resultado de um trabalho de vários anos", diz Aihara.

O bombeiro perfura a lama para que o cheiro emane para a superfície —é a técnica chamada de cone de odor. Então, o cão fareja e identifica se há corpos no local.

Os bombeiros de Brumadinho estão sujeitos também ao esgotamento físico, por andar longas distâncias, muitas vezes carregando equipamentos pesados. Deslocar-se na lama, porém, é um desafio.

"Às vezes eles têm que literalmente nadar na lama", diz Aihara. Para distribuir a pressão sobre o terreno e evitar afundar, os profissionais rastejam. Também trabalham amparados por cordas e dispondo tapumes e madeira pelo chão para estruturar um caminho no pântano.

A roupa de mergulho, de neoprene, dá mais flexibilidade, tem menor aderência e evita a hipotermia, já que a lama é fria.





Fonte: UOL

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